Para mim, a beleza e por enquanto a única utilidade da religião -estou apenas começando minha caminhada por essas vias, logo é normal que eu ainda não encontre sentido em tudo- está na cautelosa adaptação à realidade que podemos fazer. É impossível ler a Bíblia e não sentir-se meio confuso perante tanta informação. Para compreender a mensagem da Bíblia, que tem camadas e mais camadas de contexto, eu quase sempre preciso de alguém que me guie ou pelo menos de uma outra Bíblia, de estudo, que acompanhe a leitura. Do contrário, jamais entenderei o que o salmista quis dizer com “a sua vara e o seu cajado me consolam” e assim por diante. Mas algo que pode sim ser feito, e que venho timidamente tentando, é adaptar o pouco que compreendo da Bíblia à minha vidinha cotidiana. Ora, se Salomão afirma que tudo é vaidade, eu primeiro preciso entender o que é tudo, mas principalmente o que é vaidade. Calçar luvas no frio é vaidade? Sentir frio é vaidade? Acariciar a barriga do meu cachorro é vaidade? De posse de tais conclusões, que ainda não tenho, sou capaz de analisar a minha vida e (sendo o caso) endireitar* o meu caminho.

 
*ENDIREITAR o meu caminho, hahaha. Logo eu.

 
Ainda sobre religião, tenho pensado bastante nas diversas aplicações do sofrimento. Nasci na parte do mundo em que as pessoas combatem a idéia do sofrimento a todo custo, sem se dar conta, por exemplo, de que amar é sofrer -e é impossível ser homem e não amar. Poucos conceitos são tão combatidos no Ocidente, e poucos são tão bonitos. Essa escolha por sofrer o dano, por dar a outra face -que automaticamente tranforma quem a pratica numa pessoa maior, nunca sendo, no entanto, o motivo principal por trás da ação- é rica demais, preciosa demais e ainda tenho muito o que aprender com ela.